quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Essa é a minha história: um mundo de conto de fadas


"Crescendo como mim mesma foi uma experiência fantástica, mas mais no sentido da palavra "fantasia". Li todos os livros sobre contos de fadas que a seção dos Jovens da Biblioteca Pública de Freeport tinha para oferecer, sempre com fome de quaisquer novos livros com capas brilhantes, recheados de fadas e duendes que eles pudessem adquirir. Eu era a estrela-mor de toda história, com meus vestidos feitos de papel cor de rosa ou equipada com minhas roupas aventuras ao redor do país à pé, sabendo que encontraria o caminho verdadeiro ao meu destino, mesmo que ele estivesse sob o feitiço de alguma bruxa ou novos personagens igualmente obscuros. Eu tinha a escolha entre me aventurar por estradas desconhecidas ou receber beijos nas mãos de cavalheiros charmosos. Eu tinha unicórnios e sereias como conselheiros e estava sempre protegida do monstro que habitava embaixo da minha cama, com feitiços de magos e a oração ocasional, profunda e ardente de minha fada madrinha. Eu tinha que acreditar em sua existência.

Depois de esgotar meu gênero favorito no departamento de crianças, cresci desanimada. Me vi, pela primeira vez em minha vida jovem, em um beco sem saída. Então era só isso? Foi só isso que a vida tinha a oferecer? Eu pensei sobre o "andar de cima" da biblioteca pública - a seção adulta. Terrivelmente assustador. O que estava lá em cima? Eu só tinha estado lá algumas vezes e, em todas elas, havia sido intimidada por suas enormes pilhas de livros e por suas janelas ainda mais altas, voltando rapidamente ao meu refúgio no porão da biblioteca, a sessão infantil, com seu teto baixo e murais coloridos. Eu sabia que meus livros favoritos eram subterfúgios, mesmo só entendendo o significado dessa palavra 20 anos depois, mais ou menos. Eu sabia que o que eu gostava de ler eram fugas para mim, e eu os amava por isso.

Eu sabia que algum dia iria receber um cartão de biblioteca para adultos, mas o que isso significa? Eu teria que usar um certo tipo de calças para estar apta a usufruir desse cartão e de todos os seus benefícios e responsabilidades? Será que o meu cinto teria que combinar com meus sapatos? Será que eu, de repente, precisaria usar óculos e apertar os olhos ao ler, fazendo muitos sons de 'hmm'?

Eu gostava da idéia de ser um adulto, mas não se isso significasse desistir de meus contos de fadas e todo o seu esplendor e possibilidades. Eu gostava da sensação vaga e tangencial de tomar os primeiros passos para a vida adulta, mas só se eu pudesse trazer comigo minha coleção de vestidos de baile e deixar meu unicórnio de plantão do lado de fora.

No andar de cima, eu imaginava, ansiosa, livros com capas de couro rachados, densos, com ilustrações copiadas a mão e histórias muito, muito importantes que me ensinariam sobre a vida e como usar salto e fazer reverência em um vestido de baile, porque essas coisas pareciam ser importantes para as mulheres adultas e eu não fazia idéia do porquê. Se a seção adulta ainda tivesse contos de fadas, (e deus sabe que quão arrogantes eles são), imaginava que fossem histórias sobre de onde os contadores vieram ou análises de por que as crianças desperdiçavam tanto tempo lendo contos de fadas.

Reexaminado a seção de Jovens leitores, minhas incursões na sessão de mistério e Judy Blume, só confirmaram o que eu queria, que era poder escolher minhas próprias aventuras e dragões. A biblioteca era o meu brinquedo, meu monstro. À partir de então, fiquei cada vez mais inquieta.



imagem de Jeannette Woitzik.

Como último recurso, verifiquei e reli alguns dos meus favoritos, acariciando suas capas, olhando para minhas ilustrações favoritas e tentando imaginar que aquela era a primeira vez que eu estava lendo aquele livro em particular, tentando, desesperadamente, reviver aquela emoção de um mundo diferente do meu, de uma vida diferente da minha! Comecei a fazer meus próprios desenhos, mas percebi que não tinha recursos para tal, além de minha caixinha de giz de cera. Escrevi alguns de meus próprios contos de fadas, mas não me satisfazia aquele maço de papel de caderno frente à glória e majestade de um item vinculado e publicado. Parei de ler inteiramente por um tempo, por puro desespero e ansiedade, mas rapidamente percebi quanto tempo eu teria que passar com minha irmã mais nova se não tivesse o meu nariz enterrado em um livro. Este assim chamado mundo real, definitivamente não correspondia às minhas expectativas.

Finalmente, um dia, depois de passar um dia inteiro enclausurada em silêncio dentre os cantos arredondados do meu próprio círculo, na Biblioteca, criei coragem e perguntei à minha bibliotecária favorita se havia mais livros de contos de fadas na parte de cima. Eu tinha nove anos.

Sendo ela uma mulher inteligente e observadora, que já me conhecia de todos os programas de leitura de férias de verão que eu tinha entrado, iniciou comigo um diálogo tranquilo e sério sobre mitologia grega e romana. Eu, como nunca havia ouvido falar naquilo antes, fiquei bastante cética. Para mim, os adultos não eram seres confiáveis.

Eu me lembro dela me acompanhando duas ou três vezes para o andar de Cima - com C maiúsculo. O andar de Cima era atordoante e não convidativo. Adolescentes empenhados em me cumprimentar de formas estranhas e homens carecas de óculos lendo catálogos e se sentindo pouco a vontade com a minha presença. Minha Bibliotecária Guardiã me mostrou a seção de que havia me falado a respeito, pegou alguns exemplares, e me deixou a vontade para lê-los Eu tinha certeza de que algum outro adulto apareceria a qualquer instante, contestando o que eu estaria fazendo na sessão de livros adultos, talvez me agarrando pelo ombro e jogando de volta para o andar de baixo. Para evitar que isso acontecesse, eu agia como se já tivesse lido todos aqueles livros e os conhecesse muito bem; como se estivesse ali apenas dando uma voltinha.

Não me recordo com qual mitologia iniciei, e tenho certeza que essa informação acrescentaria à minha história, mas lembro das roupas - deslumbrantes! Um lençol de cama velho era o necessário para se transformar em uma divindade de carne e osso ou, ainda, a tragédia de um mortal cuja agonia foi tamanha a ponto de nomear uma cidade inteira! Os adultos estavam lendo isso? Toda a minha existência estava prestes a se tornar válida. Este material estava me deixando excitada, quando comecei a vislumbrar que não se tratavam apenas de histórias incríveis, mas civilizações inteiras as haviam utilizado como referência durante milhares de anos. Onde eu estive pelos últimos nove anos?! Certamente não estava lutando com serpentes com cabeças de cobra ou me encontrava presa em um labirinto com uma criatura metade vaca me perseguindo - INCRÍVEL! Eu mergulhei de cabeça nesse mundo mitológico, devorando tudo o que encontrasse pela frente e que não tivesse relação nenhuma com a escola - a professora indicou Homero e dele eu fugi.

Meus pais tinham que verificar os livros que eu lia, que não faziam parte do conteúdo dos Jovens leitores durante um longo período. Quando se cansaram disso, eles assinaram algum pedaço de papel especial que me deixava conferir tudo o que eu quisesse no andar de Cima e eu fui, então, presenteada com um cartão de biblioteca adulto. Eu era livre agora.

Eu ainda passei algum tempo no meio dos livros da sessão de Jovens leitores, mas as coisas nunca mais foram as mesmas depois que eu tive livre acesso ao andar de Cima. Pulsando silenciosamente no meu bolso de trás, como uma jóia roubada de um dragão durante seu sono, estava meu cartão da biblioteca. Me senti inspirada a grandes coisas apenas por saber que estava ali. Tendo lido todos os contos de fadas, eu estava apenas começando a perceber o quão sério um cartão de biblioteca era e é e todas as coisas que pode significar para uma série de pessoas diferentes. Meu cartão do andar de Cima realmente havia me dado poderes e quando subi as escadas com ele, com pequenas asas nos meus tornozelos, eu tinha certeza de que tudo era possível."


Escrito por: April Gutierrez Manning
   
Imagem: Jeannette Woitzik.